Ricardo Castanheira
Este é um espaço de opinião e liberdade individuais que apenas a mim obriga e responsabiliza.
29/06/2026
O futebol jamais foi uma ciência exata. É uma arte. E toda arte definha quando o tacticismo pretende substituir a inspiração e a imaginação. Multiplicam-se esquemas, mapas de calor e algoritmos; escasseiam o drible inesperado, o passe impossível e a alegria contagiante de quem joga porque ama a bola.
No nosso banco e ao comando está um zero à esquerda. Foi assim na Bélgica – onde triturou uma das melhores seleções de sempre – e repete a ementa em Portugal. Consegue transformar os melhores talentos do mundo em atletas sofríveis a quem falta brilho, alegria e inspiração. Só não vê quem não quer!
Os grandes cronistas compreenderam aquilo que muitos treinadores esqueceram: o futebol não nasceu para evitar o erro, mas para perseguir o encantamento. O golo não é apenas uma estatística; é um poema escrito em movimento. Uma assistência vale tanto quanto a finalização. Um desarme elegante pode ser tão belo quanto um remate ao ângulo. Mas nada supera uma equipa que ataca unida, repartindo o protagonismo como uma orquestra em que ninguém procura tocar mais alto do que os outros.
O futebol mais belo não é o que controla todos os espaços, mas o que abre horizontes. Não é o que paralisa o adversário, mas o que liberta o talento. A obsessão pela segurança transformou demasiados jogos em exercícios de cálculo, quando deveriam ser celebrações de coragem.
Cada partida nossa tem sido um arrepio, uma tristeza desconcertante. Do banco só desnorte.
Os campeões ficam nos livros. As equipas que jogam com alegria permanecem na memória. Porque o povo nunca se apaixonou por linhas de cinco, blocos médios ou posse estéril. Apaixona-se por quem ousa, por quem inventa, por quem compreende que a bola foi feita para circular entre companheiros, nunca para alimentar vaidades. Enquanto houver uma criança a sonhar com um drible e não com um esquema tático, continuará viva a esperança de que a poesia volte a vencer o medo.
Até aqui fomos um ledo engano! Ainda há tempo para mudar…
11/05/2026
NUNCA FOI FÁCIL!
E se fosse, não era para nós! Sendo o academismo um estado de alma – que o distingue do mero clubismo – o sofrimento é uma constante. Próprio das paixões intensas, como a Briosa.
Este ano não foge à regra e cá estamos, uma vez mais, naquele impasse do vai-não-vai. Tem havido de tudo, como neste fim de semana: recuperar de uma desvantagem de três golos, enfrentar arbitragens tendenciosas e a espera (em vão) pela escorregadela alheia.
Mas esta tem sido uma época desportiva com notas especiais: recordes de assistência em Coimbra e magotes de gente a acompanhar a Académica fora de casa; um sentimento de esperança e alegria estampado em caras de gerações mais novas. Há futuro!
Afinal de contas, a Académica de Coimbra é muito mais do que um clube de futebol. É um símbolo histórico da cidade de Coimbra, da tradição universitária e de uma identidade única no panorama desportivo português. Por muito que outros não entendam, a Briosa transporta consigo um legado raro de cultura, pensamento crítico e paixão, sendo recordada por gerações de adeptos espalhados pelos quatro cantos do mundo.
A indispensável subida de divisão representa, por isso, muito mais do que um sucesso desportivo. Significa devolver visibilidade nacional a Coimbra, revitalizar o orgulho coletivo da cidade, atrair mais pessoas ao estádio, dinamizar a economia local e recolocar a Académica no palco onde a sua história exige que esteja. Uma Académica forte é também uma Coimbra mais afirmativa, mais vibrante e mais confiante no seu futuro.
Na última jornada, daqui a uma semana, há um apelo que deve ecoar em cada canto onde exista um academista: é preciso encher o estádio, atingir novo recorde de assistência, e empurrar a equipa do primeiro ao último minuto; os jogadores que entrem em campo conscientes de que carregam décadas de história, memória e esperança. Falta um derradeiro esforço para transformar um sonho coletivo em realidade.
Coimbra exige-o. A Académica merece!
27/04/2026
Tivemos os nossos dias preenchidos com músicas para celebrarmos a mais bela das revoluções. Não se consegue imaginar o dia 25 de Abril sem música. A liberdade plena faz-se com acordes.
A música não é um mero produto de consumo: é memória, identidade e linguagem emocional universal. Acompanha-nos nos momentos decisivos, estrutura culturas e cria pontes entre gerações. É, por isso, um dos pilares mais profundos da experiência humana.
Neste contexto, voltamos ao tema da ascensão da inteligência artificial na criação musical, pois levanta questões que não podem ser ignoradas. Nunca foi tão fácil produzir, distribuir e consumir música, mas essa abundância traz consigo um risco silencioso: a diluição do valor artístico e a erosão dos direitos dos criadores.
Diariamente ficam disponíveis nas plataformas de streaming centenas de milhares de novas faixas geradas por sistemas de IA treinados com vastos catálogos de obras pré-existentes. O problema central não é a tecnologia em si, mas o modo como tem sido desenvolvida: muitos destes modelos são alimentados por músicas de autores que nunca deram consentimento para tal utilização, nem receberam qualquer compensação por isso.
Acresce um desequilíbrio preocupante. Os criadores humanos não têm acesso aos dados que treinam estes sistemas, nem meios para contestar ou proteger o seu trabalho. No entanto, veem-se confrontados com conteúdos gerados por IA que competem diretamente com as suas obras, frequentemente replicando estilos, estruturas e sensibilidades construídas ao longo de anos de criação.
Se a música é expressão de humanidade, então a sua exploração sem regras claras representa mais do que uma questão económica: é um desafio ético e cultural. Regular este novo ecossistema não é travar a inovação, mas garantir que o futuro da música continua a respeitar quem lhe dá origem.
Em Abril, convém lembrar que as artes são condição para a realização da liberdade, porque permitem ao indivíduo imaginar, expressar e questionar o mundo para além das limitações impostas pela realidade e pelas estruturas de poder.
13/04/2026
Infelizmente outro tema colocou Coimbra e a sua Presidente debaixo dos holofotes a semana passada, retirando visibilidade e brilho a uma decisão da maior importância: a suspensão parcial do Plano Diretor Municipal.
A deliberação da Câmara Municipal de Coimbra de suspender parcialmente o Plano Diretor Municipal representa um momento estratégico e, sobretudo, corajoso para o futuro da cidade. Num contexto em que muitas autarquias permanecem reféns de instrumentos de planeamento urbano desatualizados, esta opção rompe com a inércia e assume a necessidade de adaptar Coimbra às exigências contemporâneas.
Mais do que um gesto técnico, trata-se de uma decisão política com visão. Ao abrir espaço para novos investimentos e para uma expansão urbana mais flexível, o município dá os primeiros passos para criar condições para dinamizar a economia local, atrair talento e reforçar a competitividade da cidade num contexto nacional cada vez mais exigente.
Particularmente relevante é a oportunidade de reimaginar as margens do Mondego, transformando-as num eixo de centralidade urbana, convivência e inovação. Ao mesmo tempo, a possibilidade de aumentar a oferta de habitação para jovens e classe média responde a um dos maiores desafios atuais: fixar população e evitar a desertificação humana.
Importa sublinhar que esta suspensão parcial não significa ausência de planeamento nem de regras, mas sim uma adaptação aos tempos e às necessidades. Trata-se de um processo que, sendo transparente, deve ser acompanhado e escrutinado no tempo pela população e pelos seus representantes. Essa abertura reforça a legitimidade da decisão e garante que o desenvolvimento futuro será mais equilibrado e participado.
Coimbra tem agora diante de si uma oportunidade rara: iniciar um novo ciclo de crescimento, mais dinâmico, inclusivo e alinhado com estes tempos. Venham daí os projetos concretos, os novos investimentos públicos e privados para que a população possa confirmar a relevância da decisão política ora tomada!
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