Jonathas dos Anjos Psicanalista
Psicanalista/Supervisor
Professor de Psicanálise no @ceteppsicanalise
Atendimento On Line e Presencial
Av. Andrade Neves, 2025
Ser racional não é não sentir e ser emocional não é perder a razão.
A psicanálise desmonta essa oposição.
Porque, muitas vezes, aquilo que chamamos de “razão” já está atravessado por desejos, medos, fantasias e defesas que desconhecemos e aquilo que chamamos de “emoção” também não é um território puro e transparente, afinal de contas nossos afetos carregam histórias, conflitos e significados que nem sempre conseguimos reconhecer.
O problema não é sentir ou pensar demais.
É acreditar que somos inteiramente senhores daquilo que pensamos e sentimos.
Freud nos mostrou que o Eu não é senhor em sua própria casa
Há algo em nós que deseja, repete, teme e escolhe antes mesmo que consigamos transformar isso em pensamento consciente.
Talvez não precisemos escolher entre razão e emoção.
Mas pensar aquilo que sentimos sem precisar negar o que sentimos, e sentir aquilo que pensamos sem precisar obedecer cegamente aos nossos afetos.
Porque equilíbrio psíquico não é ausência de conflito,  mas a capacidade de reconhecer quando a razão está tentando silenciar um afeto que precisa ser escutado.
A cultura transformou o amor próprio em um ideal de independência, gostar de si, não precisar de ninguém, manter a autoestima sempre elevada
Mas na psicanálise a questão é muito mais profunda.
Freud no Introdução ao Narcisismo nos leva a compreender que o amor próprio não é um sentimento fabricado pela razão, nem um exercício diário de convencimento
Ele é a experiência subjetiva que construímos com aquilo que reconhecemos como nosso
É a relação que estabelecemos com o nosso corpo, com a nossa história, com nossos limites, desejos, fracassos e possibilidades
Amar a si mesmo não significa admirar-se o tempo todo
Significa conseguir habitar a própria existência sem precisar fugir constantemente dela.
Talvez seja por isso que tantas pessoas confundam amor próprio com autoconfiança, vaidade ou autossuficiência
Essas podem ser apenas tentativas de sustentar uma imagem
O amor próprio porém, não nasce da imagem
Ele nasce do vínculo que estabelecemos com quem somos, inclusive com aquilo que em nós é imperfeito, incompleto e muitas vezes doloroso.
A experiência analítica não ensina alguém a “se amar”.
Ela oferece a possibilidade de um encontro diferente consigo mesmo, encontro em que o sujeito deixa pouco a pouco de viver apenas para corresponder ao olhar do outro e começa a construir uma relação mais verdadeira com a própria subjetividade.
Talvez o amor próprio não seja aprender a se admirar.
Talvez seja antes de tudo aprender a não ser tão rude consigo mesmo
Empatia não é se colocar no lugar do outro.
Porque na verdade eu nunca posso ocupar o lugar do outro.
Posso imaginar
Posso me aproximar
Posso ser afetado pelo que ele me conta
Posso tentar compreender a dor que ele vive
Mas a experiência do outro continua sendo do outro
E talvez seja justamente aí que a empatia começa
Na perspectiva de Ferenczi, o analista não é chamado a permanecer distante, protegido por uma suposta neutralidade
Ele precisa desenvolver aquilo que Ferenczi chama de tato psicológico: uma sensibilidade capaz de perceber o que o outro pode suportar, o que precisa ser dito, o que precisa ser silenciado e sobretudo como estar diante de uma experiência que não é sua.
Empatia, então, não é dizer:
“Eu sei exatamente o que você está sentindo.”
É poder dizer ainda que sem palavras:
“Eu não sei exatamente como é estar no seu lugar, mas estou disposto a me aproximar o suficiente para tentar compreender o que acontece aí.”
Existe uma diferença enorme entre sentir pelo outro e sentir com o outro.
O primeiro pode produzir julgamento, pena ou até uma falsa sensação de compreensão.
O segundo exige presença.
E presença não é fusão.
É estar suficientemente próximo para ser tocado pela experiência do outro sem deixar de reconhecer que aquela experiência pertence a ele.
Talvez a empatia em sua forma mais ética seja justamente não ocupar o lugar do outro, mas permanecer ao lado dele enquanto ele nos mostra como é estar naquele lugar
É nesse espaço entre a proximidade e a diferença que a escuta pode realmente acontecer
Vivemos em uma época que transforma o amor em desempenho e a autoestima em uma obrigação
Somos ensinados a “nos amar” como se isso fosse uma decisão individual, uma técnica ou um exercício de força de vontade
Freud em Introdução ao Narcisismo, propõe um caminho muito menos confortável.
O amor-próprio não nasce do isolamento nem da repetição de frases motivacionais, é tecido na experiência de ter sido investido por um outro
Antes de aprendermos a amar a nós mesmos, fomos ou deixamos de ser alvo do olhar, do cuidado e do desejo de alguém
É por isso que tantas pessoas mesmo colecionando conquistas continuam sentindo um vazio que nenhuma validação consegue preencher
Não se trata apenas de “baixa autoestima”, muitas vezes trata-se de uma história marcada por investimentos insuficientes, contraditórios ou atravessados por exigências impossíveis.
A cultura contemporânea responde a esse sofrimento com um imperativo: ame-se mais.
A psicanálise faz outra pergunta: quem lhe ensinou na experiência, que você era digno de ser amado?
Talvez a verdadeira autoestima não seja um ponto de partida mas um efeito
Um efeito dos vínculos que nos constituíram e muitas vezes também da experiência analítica, onde um novo modo de ser visto, escutado e reconhecido pode devolver ao sujeito algo do investimento que um dia lhe faltou.
Porque ninguém aprende a amar sozinho
E talvez seja justamente essa a parte que nossa época mais insiste em esquecer.
26/07/2026
A clínica nos ensina que transformar a dor nunca é um caminho linear
Há silêncios que demoram a encontrar palavras, há defesas que precisaram existir antes de poderem ser compreendidas e há encontros que pouco a pouco nos devolvem a possibilidade de existir sem precisar abandonar a nós mesmos
O trabalho analítico exige tempo, delicadeza e coragem de quem escuta e de quem se permite ser escutado.
Porque às vezes o maior retorno de uma análise não é deixar de sofrer, mas descobrir que já não é preciso sofrer sozinho.
Estamos vivendo um tempo, que cobra dos pais algo impossível de alcançar; não falhar.
Como se amar significasse acertar sempre
Como se educar fosse uma sequência de decisões impecáveis
Como se a infância pudesse existir sem frustrações, desencontros e reparações
Mas o que constitui um filho não é ter sido criado por pais extraordinários
É ter encontrado adultos suficientemente presentes para sustentar o vínculo mesmo quando a própria humanidade aparece
A idealização da maternidade e da paternidade é cruel. Ela transforma pessoas em personagens e faz da culpa uma companhia constante
Pais deixam de viver o encontro com os filhos para perseguir um ideal inalcançável
Nenhuma criança precisa de um herói dentro de casa.
Precisa de alguém que suporte permanecer
Que reconheça os próprios limites
Que possa errar sem abandonar o amor, e reparar sem apagar a história.
A infância não é construída pela ausência de falhas
Ela é atravessada pela experiência de descobrir que o amor pode sobreviver às imperfeições.
Talvez seja justamente aí que reside a beleza da função parental, não em ser perfeito mas em continuar sendo presença mesmo quando a perfeição já caiu por terra
“As coisas velhas já passaram”
Vídeo: Ruben Alves
Há uma sabedoria antiga em Provérbios 22:6 que continua desafiando nossa forma de educar, mesmo que muitos interpretem a ideia desse texto de forma religiosa, o que não quero adentrar aqui.
A sabedoria desse escrito não está em uma fórmula para garantir o futuro de uma criança, mas nos convida a reconhecê-la em sua singularidade
Criar um filho não é moldá-lo à imagem dos pais
É encontrar quem ele é antes que o mundo lhe diga quem deveria ser
Décadas depois, Sándor Ferenczi levaria essa intuição para a clínica
Para ele o sofrimento psíquico nasce muitas vezes quando a criança precisa abandonar sua própria experiência para se adaptar às necessidades emocionais dos adultos
Quando é obrigada a amadurecer cedo demais, a silenciar o que sente ou a corresponder às expectativas da família, ela aprende a sobreviver
Mas às custas de si mesma
O verdadeiro cuidado não começa quando a criança se adapta à família
Começa quando a família é capaz de se adaptar à criança
Talvez educar seja menos sobre ensinar um caminho e mais sobre proteger aquele que já começa a se revelar
Porque uma infância que encontra espaço para existir não precisa trocar sua autenticidade por amor
E talvez essa seja uma das formas mais profundas de cuidado; oferecer um ambiente onde a criança não precise deixar de ser quem é para continuar sendo amada
“O tempo nunca nos pergunta se estamos prontos.”
Passamos boa parte da vida tentando administrá-lo, fazemos planos, estabelecemos metas, adiamos encontros, economizamos afetos como se houvesse um momento mais oportuno para viver
Mas o tempo não negocia.
Na psicanálise, envelhecer não é apenas um fenômeno biológico, éo encontro gradual com a impossibilidade de controlar a existência
Cada aniversário nos lembra que não acumulamos apenas anos; acumulamos escolhas
E toda escolha carrega inevitavelmente uma renúncia
Talvez por isso o envelhecimento provoque tanta angústia
Não porque o corpo mude, mas porque ele denuncia que o tempo é finito
A fantasia narcísica de que “ainda há tempo para tudo” começa a ceder lugar à pergunta mais difícil, o que estou fazendo com o tempo que me resta?
Freud nos mostrou que o psiquismo busca preservar uma ilusão de permanência, enquanto a realidade insiste em nos confrontar com a perda, a mudança e a morte.
Crescer é aprender que viver não significa vencer o tempo, mas construir sentido apesar dele.
O paradoxo é que só percebemos o valor de um instante quando ele já passou
O presente é breve demais para ser retido, mas suficientemente longo para ser habitado.
Talvez a maturidade não consista em aprender a administrar o relógio, e sim em abandonar a fantasia de controlá-lo.
Porque ninguém domina o tempo.
O que podemos escolher é como amar, como lembrar, como cuidar e como estar presentes enquanto ele passa.
No fim não é o tempo que mede uma vida.
São os vínculos que dão profundidade aos minutos e transformam a passagem dos anos em uma história que vale a pena ter vivido
Vídeo: Poesia de Dylan Thomas
Filme: Interestelar
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